palpita o vento lá fora,
no tempo vadio de uma noite em claro,
onde a chuva é o conforto dos sentidos,
o leito de tão singular figura,
tatuada a vestígios de língua,
carne de sumo selvagem,
fresca vertigem de amargura…
amas com os lábios,
quem não tem teu coração,
e encerras-te na vida,
entre boémias, encharcadas seduções,
recônditos recantos de retalhos rasgados,
e pequenas ilusões,
desilusões…
és de mim ao acordar,
ao adormecer…
és de mim sem querer!
de teu olhar escorre o silêncio,
quando ao abrir o escondes,
entre ruas estreitas,
húmidas no repetido amontoar,
de consciências viscerais,
tumultos carnais,
à sombra deste vulto rendido,
a quem chamaste segredo…
absorto em fragmentos de passado,
fios de luz espelhados,
na íris beijada,
a mim colada…
e acorda-me o pingar da solidão,
o trémulo sorriso de plástico,
onde tudo é tão pequeno,
apertado…
abafado…
o amanhã que o vento me traz,
nesse obtuso esquadrinhar,
esbarra em teimoso empecilho,
de andar desengonçado,
bruxuleante ternura,
trémula doçura,
que no suave derivar,
de trilhos e fados alados,
me carrega na velhice,
no miolo da multidão,
entre morrinha e tolice,
o que foi que eu disse?
perdido, achado,
levemente enamorado,
por quem fui e não amei,
por quem nunca voltarei,
do mudo arrepio desse olhar,
cansado de aqui morar…
na era dos cavaleiros,
vagueava execrado,
em trajes de puro desagrado,
enquanto sonhava a princesa,
e roía o sapato,
tiritava na neblina,
escorrer do anoitecer,
pelos negros tabiques desalinhados,
desse alguidar de peçonha,
leito de feno,
enxerga medonha,
escultura estéril,
árida à luz da candeia,
qual mel ofuscado,
consumido do nada,
na veloz estocada,
dessa aromática espada,
por tão bela dama,
manejada…
saber quem sou,
para saber quem és…
peça delicadamente estudada,
de teimosia estruturada,
ao extrapolar de emoções,
abalada e encharcada,
em meu olhar de menino,
inocente, perdido,
neste orgulho ferido,
por traços marcados,
nessa face de açucar…
feliz…
dizes de ti com a certeza,
de quem sussurra pelo sol,
ao ouvido do mar…
triste…
digo de ti com a certeza,
de quem te fala ao coração,
sem palavras ou argumentos,
apenas doces memórias…
…
repouso num arrepiado aguardar,
recostado a este muro de pedras,
soltas, despegadas,
fortaleza do teu olhar,
temporário refúgio da alma,
de um sono naufragado…
…
queres um beijo de acordar?
o que fazer?… interrogo…
ao ver-te passar,
caprichoso caminhar,
no percutir de estilhaços,
entre dúvidas arrastados,
por tão frios passos…
o que fazer?… interrogo…
entre frios estilhaços,
tão arrastados passos,
no percutir ao passar,
de dúvidas caprichoso,
por ver-te caminhar…
o que fazer?… interrogo…
no caprichoso percutir,
de estilhaços arrastados,
dúvidas ao caminhar,
por ver-te entre passos passar,
tão frios…
sou do tempo a que chamo velho,
venho de longe,
onde nem teu olhar alcança,
onde és princípio e fim,
desse leque oriental,
vincado em nossas mãos,
agitado ao sabor dessa boca,
que me leva e me faz homem,
obeso de sentimentos,
pesado de chumbo e amargura,
inútil nessa auto censura,
que te propões apregoar,
ao rasgar das ondas do mar,
nos momentos de loucura…
não quero ser todos,
banal na generalidade do meu sexo…
recuso uma vida já escrita,
gravada e gasta na velha fita…
e se nada me resta,
resta-me o sorriso…
ah… o sorriso…
sorriso é um doce que dança no vento,
rodopia no deslizar de minhas lágrimas,
ilumina os olhares mais distantes…sorriso é um espelho da alma,
um desembrulhar de felicidade,
uma sombra sincera ao pôr do sol…sorriso é tudo o que somos,
tudo o que temos e desejamos,
refúgio da solidão…sorriso és tu…
e se nada me resta,
restas-me tu…
pálidos tons penteados,
nesta minha aguarela translúcida,
suaves carícias e desejos,
dicotómicos sentimentos elaborados,
numa pasta ardente,
queimados…
pinceladas atómicas,
agulhas de aborrecimento tricotadas,
orgulhos avultados,
e linhas cruzadas,
afastadas…
recortes de amor,
picotado na paixão,
no receio da desilusão,
irónica…
barro harmónico,
jasmim de carvão,
duro…
escultura de frio,
gelado…
distante…
ela,
de seu nome morte,
também chora doçura,
mil águas de arrependimento,
de um cru vazio de tudo,
desertos do inverso ao mundo,
do avesso a nós,
em orifícios de negro vestido,
cínico e veloz ofício,
desta cruzada final,
por tão desmedida palavra,
ambiciosa eternidade,
hoje em tua voz calada,
pela cidade abafada,
gastou-se em mim,
afogou-se em ti,
partiu rumo ao abismo,
nesse olhar sem fim…